Carne – uma decisão em consciência

Carne – uma decisão em consciência

Ao longo dos últimos anos, as discussões e polémicas relacionadas com a nossa alimentação têm assumido uma posição de destaque, como nunca antes tinha acontecido.

De todos os temas que alimentam sites e blogs, que fazem correr tinta nos media, que dividem académicos e que de uma forma furtiva nos entram em casa, para de uma maneira ou de outra nos fazer assumir uma posição, provavelmente o consumo de carne (subentenda-se produtos de origem animal) é aquele que mais tem dividido e criado um extremar de posições em pessoas de todas as culturas, raças e religiões.

Para começar, tal como em qualquer tema que tenha princípios éticos e morais subjacentes, não existe um certo e um errado. Um sim absoluto ou um não perentório. Existem sim, informações e dados de conhecimento público que devem ser analisados e avaliados de forma a que possamos assumir a nossa posição e tomar as nossas decisões de forma ética e consciente.

Sem desvalorizar a complexidade do tema, analisemos o mesmo sob três pontos de vista distintos, mas complementares: 

Nutrição

Desde o período do paleolítico, em que a sobrevivência do ser humano dependia da caça e coleta de alimentos disponíveis na natureza, que a carne representa a maior fonte de proteínas e de nutrientes na nossa dieta. Na verdade, somos omnívoros e o consumo de carne permite-nos acesso a um nutriente impossível de encontrar (biodisponível) no reino vegetal: a vitamina B12 – fundamental em variadíssimos processos metabólicos e fisiológicos no nosso organismo.

Por outro lado, a ideia de que o acesso a proteínas completas, é possível apenas através da carne, é simples de entender e desmistificar – existem 9 aminoácidos essenciais (não produzidos pelo nosso sistema, tendo dessa forma de ser ingeridos). Na carne coexistem todos, o que faz da sua proteína uma proteína completa. No entanto, os 9 aminoácidos essenciais podem ser todos eles também encontrados em vegetais – alguns com os 9 na sua composição (cânhamo ou quinoa, por exemplo) – outros com apenas alguns. Neste caso é importante existir conhecimento de como combinar os diferentes alimentos, de forma a conseguir aceder a todos os aminoácidos. O melhor exemplo será o famoso feijão com arroz, prática gastronómica em várias culturas por todo o globo. Apesar de nem o feijão nem o arroz terem proteínas completas, os dois em conjunto possuem todos os 9 aminoácidos que necessitamos de ingerir.

Ambiental

51% dos gases de efeito de estufa é oriundo da agropecuária.

Um hamburger de vaca custa ao ambiente cerca de 660 litros de água (duas semanas de banhos de chuveiro!!)

Mais de metade da água consumida no ocidente serve para cultivar alimentos para alimentação de gado. Se esses cereais e legumes fossem canalizados para alimentação humana a fome poderia ser praticamente abolida no mundo.

Ético

É provavelmente uma questão a roçar o campo da filosofia, mas não é por isso que perderá a sua pertinência:

Teremos nós, seres humanos, algum papel de relevância e superioridade absoluta perante as outras espécies que nos permita usar, abusar, criar, matar e possuir algum outro ser vivo de uma forma tão leviana e usual como acontece hoje?

Que emoção floresce em nós ao saber que criámos uma sociedade alicerçada no sofrimento e abuso constante sobre outras espécies?

Sintetizando, qualquer posição assumida perante um tema com raízes tão profundas e complexas como este, requer uma análise sob várias perspetivas.

A ideia de que o consumo de carne é importante para a nossa saúde não é de desprezar. Ainda menos serão os estudos que comprovam a relação entre o seu consumo excessivo e o aumento aterrador de doenças cardiovasculares e oncológicas. Entre o consumo diário destes produtos e a abolição completa, existe um meio termo onde provavelmente estará o equilíbrio.

Saiba que, enquanto leu este artigo, cerca de 1 milhão de animais foi assassinado para “nos” alimentar.

Se o seu interesse for cuidar de si, dos seus e do mundo, não deixe que a sua vontade de comer carne tolde a sua análise do problema e deturpe qualquer decisão consciente que possa tomar.

Tiago Malta
Fisioterapeuta

Clínica Fisio S. Brás